sábado, 26 de novembro de 2011

Depois do silêncio, as palavras


Passei esse tempão de mais de um ano sem escrever aqui no blog. Talvez fosse um momento em minha vida onde era mais forte o silêncio do que as palavras. Elas, as palavras, estavam sendo tecidas, plasmadas e formadas no ventre do silêncio. "A abelha fazendo o mel vale o tempo que não voou", canta Beto Guedes em Amor de Índio. Creio, ainda que escreva, que sempre vai restar o silêncio, o não dito, o que não consigo dizer. Então vamos juntos!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ESPIRITUALIDADE


É PRECISO EROTIZAR A VIDA

No Ocidente emprestamos três palavras gregas para o verbo amar: Eros,filia e ágape. Eros é o amor impulsionador da vida, dele usamos a expressão “erótico”. Filia é o amor fraterno, solidário e amigo, daí surgiu a palavra “filantrópico”. Por fim, costuma-se, principalmente nas expressões religiosas cristãs, chamar de ágape aquele amor místico, espiritual ou o próprio Deus.

Gostaria de partilhar com você, a suavidade e a sinergia que o Eros trás e sua importância para o nosso bem estar a nível pessoal e coletivo.

Poderíamos dizer que o mal estar da mulher e do homem pós-moderno, estaria relacionado à ausência de Eros, o impulso de vida que proporciona prazer no sexo, na relação familiar, na amizade, no trabalho, na escola, no lazer e na mística.

Logo de cabeça, seria preciso superar nosso tabu. Infelizmente, muitas vezes nossa compreensão, sentimento e prática do Eros, não é como força e ternura propiciadora de prazer da vida, mas apenas uma visão e práxis muito estreita, relacionando-o ao ato sexual em si ou até mesmo à pornografia. Seria preciso deixar de lado o preconceito.

Eros é impulso de vida de maneira bem ampla, sem miopia ou cegueira. Diz respeito a nossa totalidade psicossomático e espiritual e a nossa relação de cada um consigo mesmo, as pessoas, as atividades profissionais, a natureza, as artes e as culturas, o engajamento político e a religiosidade.

Sem Eros não há paixão sexual, a relação será frígida, sem fogo, moribunda. Um casal hétero ou homossexual em sua interação e expressões afetivas, destinados que somos à realização plena da sexualidade, junto com o amor da amizade e do companheirismo das alegrias e tristezas da vida, só se sustentarão, se esse impulso erótico, for uma realidade material e espiritual em suas camas.

Também na vida religiosa é preciso Eros. O livro bíblico Cântico dos Cânticos, Deus e o seu Povo “se beijam com beijos de suas bocas”. A apaixonada oração do salmista diz: “Junto de vós, ó Deus, felicidades sem limites, delícia e gozo eterno ao vosso lado”. Os escritos de Santa Teresa e São João da Cruz estão cheio de deleite e êxtase erótico místico.

Assim, o mesmo podemos dizer em relação ao trabalho. Grande parte da desmotivação profissional se deve não só a má remuneração, mas a falta de vocação, tesão. Trabalho em tal lugar por necessidade, não porque gosto da atividade. Não há nesse caso trabalho, emprego ou vocação.

Enfim, é preciso Eros para com ética e compromisso social fazer política. Como pintar um quadro, escrever um texto literário ou apresentar nossas manifestações folclóricas sem paixão? É preciso, amigo e amiga, erotizar a vida.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DIREITOS HUMANOS

VALORES INTANGÍVEIS

Hoje, no mundo dos negócios, os chamados valores intangíveis têm cada vez mais ganhado força. Tanto para empresa, os que nela trabalham ou seus clientes, não interessa apenas, por exemplo, o petróleo do combustível que ele usa em seu veículo. Grande parte já que saber o que há por de trás do produto, ou seja, quem o produz, se a empresa tem uma atuação socioambiental responsável, se trata bem seus empregados, se estes são protagonistas no processo e não meros executores ou cumpridores de funções, se suas compras são feitas de fornecedores que respeitam a natureza e os DIREITOS HUMANOS e se ainda a empresa retorna com ações que contribuem para o desenvolvimento das comunidades em que atuam. Percebe-se aqui uma evolução muito boa, onde o valor tangível está associado aos valores intangíveis.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

ESPIRITUALIDADE


ELA OLHOU BEM NO CAROÇO DOS MEUS OLHOS

Ela chegou bem perto de mim, olhou bem dentro de meus olhos, no caroço dos meus olhos – aquela parte onde tem uma fresta, uma brecha, um janela, uma porta para alma – e disse, bem baixinho, quase sussurrando, mas como se fosse um grito: “Não, Deus não existe! É somente uma poesia para suportar esta vida de muita dor. Seja o Tupã ou Guaracy dos índios, seu padre! Também o Montubá dos orixás ogum, xangô , iansã ou iemanjá trazidos pelo sofrido povo negro da África é poesia. O senhor gosta de poesia, não mesmo seu padre? Tão pouco esse Deus de Abraão em que crêem os judeus, cristãos e mulçumanos. Odeio esse seu Deus cristão católico, só menos perverso ao das seitas fundamentalistas dos pentecostais. Seu Deus, padre, é uma droga, uma maconha, um ópio. Acreditar nele é dá um atestado de que não passa de um sarcástico, um impotente, um malvado assistindo de sua TV plasma celestial o drama, a tragédia e a comédia da existência humana. Professar minha fé em qualquer um deles, seja daqui do Ocidente ou as deidades hindus da Índia é o mesmo que confessar que ele matou meu filho. Então deixa o de fora. Assim não terá mérito nem culpa. Ainda quando cria não pedia nem agradecia pelas chuvas. Se não chovesse, sabendo Deus o que isso significa para um sertanejo, então ele é muito mau. Se chovesse, então ele é bom? Decidi que era uma questão climática e pronto. Fale alguma coisa, padre! Fale alguma coisa, desde que não seja essa outra poesia tua de que deus é um deus humilde e sofredor. No começo até que gostei da idéia, dessas tuas palavras de um deus não caricato, de um deus sem glorias, cujo senhorio e realeza são demonstrados com bacia e toalha nas mãos na santa ceia ou lava pés e não com trono, cetro real ou coroa. Sim, no começo até gostei de te ouvir falar de um deus que sofre conosco e em nós, carne de nossa carne de agonia e prazer. Um deus sem poderes, contudo solidário. Também era interessante a vitória desse deus depois de crucificado e morto vencer sem revanches, de triunfar sem triunfalismos. Ria quando dizias que se fosse um de nós seria bem provável que fossemos tirar onda com a cara dos sumos sacerdotes anás e caifás numa visita a casa deles ou numa reunião do sinedrio inteiro, sem não antes passar por pilatos e herodes quando fosse se exibir para todo mundo no templo de jerusalém. Sim, por um tempo essa vitória discreta tinha tudo a ver com quem era manso e humilde de coração. Mas até nisso também não creio mais. Meu filho morreu! E para Deus não ter problemas comigo nem eu com ele, de crente que era já não creio mais, padre. Não sou atéia nem agnóstica. O ateísmo é uma profissão de fé ao inverso e pelo avesso. Eu não professo nem de jeito nem de outro. Não afirmo nem nego. O agnosticismo, padre, é aquela indiferença onde tanto faz deus existir ou não. Pronto, padre, não sou atéia nem agnóstica. Não creio e pronto, seu padre, entendeu?

Ela me perguntou se havia entendido e nem me esperou responder. Foi embora da cidade. O que posso dizer sobre tudo que ouvi? Essa mulher tem mais fé do que muita gente aí, inclusive eu. Sua fé está cheia de perguntas. Seu relacionamento com Deus é honesto. Talvez tenha sido a pessoa mais crente que já encontrei ou aquela que perdeu a fé e se encontrou na vida.

Quanto a mim, vou por aqui, na alegria e na agonia da fé. Na consolação e desolação da fé. No claro e no escuro da fé. Nas certezas e nas dúvidas da fé. Minha fé tão pequena e tão sofrida, menor do que um grão de areia, que não move montanhas é, contudo a minha fé. Mesmo assim é minha fé.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

CULTURA

O BOI-DE-REIS E SEU JOSÉ MARCIANO DE SÃO MIGUEL DO GOSTOSO-RN

Em mil novecentos e vinte e nove quando Seu José Marciano nasceu em São Miguel do Gostoso já tinha por lá o Boi de Reis. O menino gostava de brincar outras coisas, de ajudar o pai no fruto da bondade de Deus e do trabalho humano vindos da terra e no mar.

Quando tinha onze anos Zé caiu numa doença grande para aqueles tempos, ia morrer de tuberculose. Sua mãe fez uma promessa a Deus. Nesse tempo o catolicismo rural e litoral era rico em elementos de origem africana, indígena e também lusitana. Ainda não tinha surgindo os pentecostais protestantes e católicos para demonizar a religiosidade popular católica, nem tão pouca a chamada inculturação da fé, que ainda não compreendemos direito o que é.

Assim, com uma fé pura e verdadeira a mãe disse ao filho doente: “Olha meu filho, eu fiz uma promessa. Se você ficar bom, você vai brincar o Boi de frente a Igreja”. O sacro e o profano ainda não tinham se divorciado, “... brincar o Boi de frente a Igreja”. O Boi de Reis por si só já é esse casamento maravilhoso do mundano e do divino. Nele se reza e se brinca com músicas e danças a visita dos reis Gaspar, Belchior e Gaspar ao Menino Jesus. Sendo em frente da igreja ganha a força da promessa.

José Marciano ficou bom. Tinha uma promessa para pagar. Todavia tinha um problema, o menino era encabulado, porém, esperto e inteligente. Como tinha vergonha de entrar no grupo já existente, começou a assistir as apresentações, assim meio no canto, quase escondido, prestando atenção tim-tim por tim-tim. Deste modo cada palavra e dança do Boi de Reis foi entrando pelos olhos, os ouvidos, a boca, as mãos, a cabeça, o coração e corpo todo do menino, que ainda menino, vai virando mestre. Um dia ele convida os amigos, ensina e ensaia com eles e se apresentavam em frente da igreja, curado, pagando sua promessa e começando sua vida na cultura popular no reinado do povo.

Hoje, depois de mais de cinqüenta anos, o Mestre José Marciano, continua cantando, encantado e encantando, dançando e brincando o Boi, com o Contra-Mestre Luis Pequeno, os senhores Galãs, Birica e Mateus nas ruas de Gostoso e, para não acabar o encanto, para não desencantar, encanta todos os sábados pela manha a meninada no Ponto de Cultura no Espaço Tear o que aprendeu escondido. Assim, de geração em geração a Cultura Popular vai sendo transmitida e vivida.

Recentemente, Seu José Marciano foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura como reconhecimento nacional por seu trabalho de promoção da cultura popular em na Comunidade do Gostoso há mais de setenta anos.

Se você for a Gostoso certamente vai encontrá-lo no Ponto de Cultura, no Grupo da Melhor Idade ou nas praças e areias da praias brincando com seus velhos amigos ou com a meninada toda animada.


Sua benção, meu Mestre José Marciano!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO


AS RELIGIÕES E OS VALORES ÉTICOS COMUNS DE BASE

O diálogo inter-religioso é um imperativo para todas as expressões religiosas do mundo. Seja para conservar autenticamente a proposta de cada uma das religiões como espaço do encontro da pessoa com Deus ou outra prática do sagrado, consigo, com todas as mulheres e homens – especialmente os irmãos e irmãs que compartilham a mesma fé e vivência – e com o cosmos.

Encontro este norteado pelos princípios místicos, éticos e morais; bem como para ser no mundo uma presença e instrumento de promoção da dignidade da pessoa humana, da justiça, da fraternidade e da paz, do abraço do bem com o belo, comunhão ética e estética.

As religiões são assim, lugares do encontro do homem com Deus, com os seus companheiros de humanidade e uma relação de alteridade com o meio ambiente. Individual e coletivamente os seus membros deverão viver e celebrar os seus mistérios e o que lhes foi revelado dentro de seus próprios espaços sagrados no santuário do coração e da consciência e naqueles construídos como o lugar do culto. Deste modo, respeitadas todas as especificidades litúrgicas, particularidades morais e singularidade doutrinal, sem perder e anular aquilo que lhe é próprio, em meio a poucas ou muitas divergências, cada religião tem o compromisso – para apresentar-se à sociedade como boa e verdadeira – do diálogo e de ações conjuntas com as demais, a partir do ponto de convergência e matriz de todas elas que são, sem sombra de dúvidas, Os valores éticos comuns de base como a mística, o amor, a felicidade, a justiça social, a paz nos corações e no mundo.

Nesta crise mundial de valores as religiões desempenham um papel, intrínseco e obrigatório de ser no mundo um lugar do encontro com uma orientação básica, quando as mais diversas expressões de fé se reúnem para apresentar a imagem de Deus, e não sua perversa caricatura, apresentar aqueles princípios milenares acima mencionados - nem alienados nem alienantes - ao mesmo tempo tão contemporâneo e ainda a partir de suas fontes mostram-nos o verdadeiro rosto da pessoa humana, onde o homem torna-se mais homem e a mulher mais mulher, enfim, a pessoa humana mais pessoa e mais humana; Repito, ínsito e teimo: as religiões desempenham um papel, intrínseco e obrigatório, - de não obstante todas as suas contradições e apesar de todas as grandes objeções postas legitimamente pelos crentes com autocrítica aguçada, os materialistas históricos, os ateus e agnósticos por razões ideológicas, científicas, filosóficas, psicológicas e outras - de ser no mundo um lugar do encontro com uma orientação básica, como diria Hans Küng, para as grandes perguntas sobre o homem e a mulher: de onde, porquê e para quê – uma orientação básica para a vida individual e social. Sem negar a ciência, mas dialogando com ela, afirma ainda o teólogo suíço, as religiões podem apresentar sem equívocos, não um Deus contra a humanidade, mas sim como um Deus a favor da humanidade.

Podemos a partir dessas quatro premissas da religião como possibilidade do encontro da pessoa com Deus, consigo, com os outros e o cosmos, afirmar a exigência de todas elas reunidas, ser no mundo, um importante instrumento, em permanente diálogo com outros protagonistas, através do que convencionamos chamar de Diálogo Inter-religioso, para movimentar as pessoas e o mundo na busca de uma ética mundial (respeitadas toda diversidade cultural e geográfica) e na práxis da fraternidade, da justiça e da paz.