segunda-feira, 26 de julho de 2010

CULTURA

O BOI-DE-REIS E SEU JOSÉ MARCIANO DE SÃO MIGUEL DO GOSTOSO-RN

Em mil novecentos e vinte e nove quando Seu José Marciano nasceu em São Miguel do Gostoso já tinha por lá o Boi de Reis. O menino gostava de brincar outras coisas, de ajudar o pai no fruto da bondade de Deus e do trabalho humano vindos da terra e no mar.

Quando tinha onze anos Zé caiu numa doença grande para aqueles tempos, ia morrer de tuberculose. Sua mãe fez uma promessa a Deus. Nesse tempo o catolicismo rural e litoral era rico em elementos de origem africana, indígena e também lusitana. Ainda não tinha surgindo os pentecostais protestantes e católicos para demonizar a religiosidade popular católica, nem tão pouca a chamada inculturação da fé, que ainda não compreendemos direito o que é.

Assim, com uma fé pura e verdadeira a mãe disse ao filho doente: “Olha meu filho, eu fiz uma promessa. Se você ficar bom, você vai brincar o Boi de frente a Igreja”. O sacro e o profano ainda não tinham se divorciado, “... brincar o Boi de frente a Igreja”. O Boi de Reis por si só já é esse casamento maravilhoso do mundano e do divino. Nele se reza e se brinca com músicas e danças a visita dos reis Gaspar, Belchior e Gaspar ao Menino Jesus. Sendo em frente da igreja ganha a força da promessa.

José Marciano ficou bom. Tinha uma promessa para pagar. Todavia tinha um problema, o menino era encabulado, porém, esperto e inteligente. Como tinha vergonha de entrar no grupo já existente, começou a assistir as apresentações, assim meio no canto, quase escondido, prestando atenção tim-tim por tim-tim. Deste modo cada palavra e dança do Boi de Reis foi entrando pelos olhos, os ouvidos, a boca, as mãos, a cabeça, o coração e corpo todo do menino, que ainda menino, vai virando mestre. Um dia ele convida os amigos, ensina e ensaia com eles e se apresentavam em frente da igreja, curado, pagando sua promessa e começando sua vida na cultura popular no reinado do povo.

Hoje, depois de mais de cinqüenta anos, o Mestre José Marciano, continua cantando, encantado e encantando, dançando e brincando o Boi, com o Contra-Mestre Luis Pequeno, os senhores Galãs, Birica e Mateus nas ruas de Gostoso e, para não acabar o encanto, para não desencantar, encanta todos os sábados pela manha a meninada no Ponto de Cultura no Espaço Tear o que aprendeu escondido. Assim, de geração em geração a Cultura Popular vai sendo transmitida e vivida.

Recentemente, Seu José Marciano foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura como reconhecimento nacional por seu trabalho de promoção da cultura popular em na Comunidade do Gostoso há mais de setenta anos.

Se você for a Gostoso certamente vai encontrá-lo no Ponto de Cultura, no Grupo da Melhor Idade ou nas praças e areias da praias brincando com seus velhos amigos ou com a meninada toda animada.


Sua benção, meu Mestre José Marciano!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO


AS RELIGIÕES E OS VALORES ÉTICOS COMUNS DE BASE

O diálogo inter-religioso é um imperativo para todas as expressões religiosas do mundo. Seja para conservar autenticamente a proposta de cada uma das religiões como espaço do encontro da pessoa com Deus ou outra prática do sagrado, consigo, com todas as mulheres e homens – especialmente os irmãos e irmãs que compartilham a mesma fé e vivência – e com o cosmos.

Encontro este norteado pelos princípios místicos, éticos e morais; bem como para ser no mundo uma presença e instrumento de promoção da dignidade da pessoa humana, da justiça, da fraternidade e da paz, do abraço do bem com o belo, comunhão ética e estética.

As religiões são assim, lugares do encontro do homem com Deus, com os seus companheiros de humanidade e uma relação de alteridade com o meio ambiente. Individual e coletivamente os seus membros deverão viver e celebrar os seus mistérios e o que lhes foi revelado dentro de seus próprios espaços sagrados no santuário do coração e da consciência e naqueles construídos como o lugar do culto. Deste modo, respeitadas todas as especificidades litúrgicas, particularidades morais e singularidade doutrinal, sem perder e anular aquilo que lhe é próprio, em meio a poucas ou muitas divergências, cada religião tem o compromisso – para apresentar-se à sociedade como boa e verdadeira – do diálogo e de ações conjuntas com as demais, a partir do ponto de convergência e matriz de todas elas que são, sem sombra de dúvidas, Os valores éticos comuns de base como a mística, o amor, a felicidade, a justiça social, a paz nos corações e no mundo.

Nesta crise mundial de valores as religiões desempenham um papel, intrínseco e obrigatório de ser no mundo um lugar do encontro com uma orientação básica, quando as mais diversas expressões de fé se reúnem para apresentar a imagem de Deus, e não sua perversa caricatura, apresentar aqueles princípios milenares acima mencionados - nem alienados nem alienantes - ao mesmo tempo tão contemporâneo e ainda a partir de suas fontes mostram-nos o verdadeiro rosto da pessoa humana, onde o homem torna-se mais homem e a mulher mais mulher, enfim, a pessoa humana mais pessoa e mais humana; Repito, ínsito e teimo: as religiões desempenham um papel, intrínseco e obrigatório, - de não obstante todas as suas contradições e apesar de todas as grandes objeções postas legitimamente pelos crentes com autocrítica aguçada, os materialistas históricos, os ateus e agnósticos por razões ideológicas, científicas, filosóficas, psicológicas e outras - de ser no mundo um lugar do encontro com uma orientação básica, como diria Hans Küng, para as grandes perguntas sobre o homem e a mulher: de onde, porquê e para quê – uma orientação básica para a vida individual e social. Sem negar a ciência, mas dialogando com ela, afirma ainda o teólogo suíço, as religiões podem apresentar sem equívocos, não um Deus contra a humanidade, mas sim como um Deus a favor da humanidade.

Podemos a partir dessas quatro premissas da religião como possibilidade do encontro da pessoa com Deus, consigo, com os outros e o cosmos, afirmar a exigência de todas elas reunidas, ser no mundo, um importante instrumento, em permanente diálogo com outros protagonistas, através do que convencionamos chamar de Diálogo Inter-religioso, para movimentar as pessoas e o mundo na busca de uma ética mundial (respeitadas toda diversidade cultural e geográfica) e na práxis da fraternidade, da justiça e da paz.

DIREITOS HUMANOS


Direitos Humanos são aqueles direitos comuns a todos os seres humanos, sem distinção de raça, etnia, nacionalidade, sexo, laço social, religião, opção política, nível de instrução, orientação sexual e julgamento moral.

Os Direitos Humanos decorrem do reconhecimento da dignidade intrínseca a todo ser humano.

Os Direitos Humanos são HISTÓRICOS (mudaram no tempo e permanecem dinâmicos, em função de determinadas conjunturas e conquistas históricas, como por exemplo, a abolição da escravidão ou reconhecimento dos direitos das mulheres); são NATURAIS (essenciais à pessoa humana, mesmo na ausência de legislação específica); são INDIVISÍVEIS E INTERDEPENDENTES (não se pode defender apenas os direitos individuais, excluindo os sociais, e vice-versa, assim como não se pode defender apenas um ou alguns dos direitos em detrimento dos outros); são RECLAMÁVEIS (diante do Estado ou outra instância pública); são UNIVERSAIS, pois independem de fronteiras e leis nacionais para serem reclamados, promovidos, defendidos e garantidos.

Os DIREITOS HUMANOS CIVIS correspondem aos direitos e garantias das liberdades individuais ou coletivas. Tem como pressuposto óbvio o fundamento de todos os direitos, o direito a vida. Inclui o direito a integridade física e psíquica, bem como os direitos e liberdades concretas para a expressão do pensamento, do culto religioso, da opção política, da defesa da privacidade, do lazer, do prazer e etc.

Os DIREITOS HUMANOS POLÍTICOS dizem respeito a democracia, que não se limita apenas ao direito de votar e ser votado, mas principalmente a uma participação efetiva da sociedade nas decisões e destinos a serem tomados, em outras palavras, a participação popular.

Os DIREITOS HUMANOS ECONÔMICOS estão fundados na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tendo por fim assegurar a todos uma existência digna conforme os ditames da justiça social, da soberania nacional, da defesa do consumidor, da redução das desigualdades regionais e sociais, da busca do pleno emprego e da defesa do meio ambiente.

Os DIREITOS HUMANOS SOCIAIS correspondem mais do que igualdade de oportunidades ao reconhecimento da igualdade em dignidade, o que concretamente, significa reconhecer os direitos indispensáveis à vida com dignidade, e não apenas à sobrevivência, ou seja, a garantia de direito em relação às necessidades básicas como saúde, educação, habitação, educação, trabalho e salário justo, seguridade e previdência, acesso à justiça, segurança pública e todos os outros direitos sociais garantidos.

Os DIREITOS HUMANOS CULTURAIS dizem respeito ao direito de todos a uma vida digna com acesso a cultura, ao desporto, ao lazer e as criações científicas e tecnológicas. Reza a Constituição que o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras. É também dever do Estado fomentar práticas esportivas formais e não-formais, como direito de cada um. Poder Público incentivará o lazer como forma de promoção social. Também o Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa e capacitação tecnológica tornando-os acessível a todos.

Os DIREITOS HUMANOS AMBIENTAIS partem do pressuposto que ultrapassa a questão da preservação do meio ambiente. Mais do que preservar é preciso entender, sentir, agir e viver a realidade de que formamos um todo. Não é verdadeiro de que de um lado está a mulher e o homem e do outro se encontra a natureza e o espaço sideral. O equilíbrio ecológico consiste justamente na garantia da existência e da conservação da pessoa humana e de todos os seres vivos da fauna e da flora. Por isso, conforme a Constituição, todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem do uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade, o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

Isso não significa ver o meio ambiente como “santuários”. A centralidade dos Direitos Humanos é a pessoa humana. Por isso a importância do chamado desenvolvimento sustentável. Onde sem agredir o meio ambiente muitas atividades econômicas podem ter um grande resultado de geração de emprego e distribuição de renda.

Por fim, os DIREITOS HUMANOS promovem a garantia dos direitos temáticos e setoriais. Os Direitos Temáticos são os direitos das crianças e adolescentes, das mulheres, dos idosos, da pessoa portadora de deficiência, dos índios, dos negros, dos caboclos, dos ciganos, dos homossexuais, etc. Os Direitos Setoriais são os direitos à educação, saúde, cultura, segurança pública, meio ambiente, assistência social e todos os outros garantidos pela luta do povo e expressos em nossa legislação nacional e internacional.

Como reflexão para uma prática dos Direitos Humanos para efetivação da Cidadania deixamos a citação de alguns documentos.

“Considerando a estreita relação que existe entre a vigência os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais e a dos direitos civis e políticos, porquanto as diferentes categorias de direito constituem um todo indissolúvel que encontra sua base no reconhecimento da dignidade da pessoa humana, pela qual exigem uma tutela e promoção permanente, com objetivo de conseguir sua vigência plena, sem que jamais possa justificar-se a violação de uns a pretexto da realização de outros.”

(Protocolo sobre Direitos Humanos econômicos, sociais, culturais e ambientais – OEA)

“Reconhecemos que, em conformidade com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o ideal do ser humano livre, no gozo das liberdades civis e políticas liberto do temor da miséria, não pode ser realizado, a menos que se criem as condições que permitam a cada um gozar de seus direitos civis e políticos, assim como seus direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais”

(Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos da ONU)

ESPIRITUALIDADE

TREVAS LUMINOSAS

Entrei na escuridão da noite e encontrei Deus vestido num manto de trevas luminosas. Encontro do seu Mistério com o meu mistério... Trevas de Deus em minhas trevas. Trevas de Deus que “habitam uma luz inacessível” ( 1 Tm 6,16). Um encontro assim torna o mistério mais misterioso, porém resplandecente, expulsando uma falsa claridade por trevas luminosa.

Ele vem ao meu encontro, “os céus Ele baixou e então desceu pousando em nuvens pretas os seus pés. Um querubim o conduzia no seu vôo, sobre as asas do vento Ele pairava. Das trevas fez um véu para envolver-se, escondeu-se em densas nuvens e água escura. No clarão que procedia de seu rosto, carvões encandecestes se ascendiam” ( Sl 17,10-13 ).

Na noite vejo Deus, “trevas e nuvem o rodeiam no seu trono... vai um fogo à sua frente... seus relâmpagos clareiam toda a terra” ( Sl 96,2 ). Agora entendo o salmista. “Se eu pensasse: ‘a escuridão venha esconder-me e que a luz ao meu redor se faça noite!’ Mesmo as trevas para vós não são escuras, a própria noite resplandece como dia, e a escuridão é tão brilhante como a luz” ( Sl 138,11-12 ). Essa frase me mexe todo por dentro em fim, ela é a minha vida espiritual, a minha vida toda: “A escuridão é tão brilhante como a luz”. Na escuridão com Davi eu canto: “Bendize, ó minh’alma, ao Senhor! Ó meu Deus e meu Senhor, como sois grande! De majestade e esplendor vos revestis e de luz vos envolveis como num manto” ( Sl 103,1-2 ).

Enquanto escrevo, Deus do céu dá gargalhadas de min se divertindo à minhas custas, pois se rir das coisas que dançam no papel aqui na terra. Ele se rir e diz: “Não é nada disso, meu Fabinho, não é nada disso!” É verdade, não é nada disso. Bem, é tudo isso que estou escrevendo, mas a experiência está no papel não estando, e não estando está. Paradoxos e contradições! Alternância harmoniosa entre mistério e revelação, conhecimento e incompreensibilidade, afirmação e negação, linguagem e inefabilidade, transcendência e imanência, noite e dia, trevas e luz.

Buscamos no estudo da teologia uma síntese entre a via apofática de uma teologia do mistério e a via catatáfica, de uma teologia afirmativa sobre Deus. Mas quando se trata de experiência de Deus, é mais certo o que a gente não consegue dizer. Se pude dizer alguma coisa, de resto se sente uma sensação do “não dito”. É certo tudo aquilo que escrevo agora mas é bem mais certo o que não disse, o que está escondido, o que não sei dizer, inexaurível, inefável, secreto, escuridão luminosa... é bem mais certo aquilo que em min é silêncio e solidão habitada pelo Mistério.


domingo, 4 de julho de 2010

PARTILHAR E INTERAGIR

Gostaria de falar como um de você mesmo. Aqui partilharemos as coisas bonitas que temos e as dificuldades que passamos. Se você reparar bem, as coisas que lhe serão ditas, virão não só de mim, mas de sentimentos e razões que vivem e falam em nós dois. Convido fraternalmente de interagir. Por aqui bailarão como no grande salão planetários a teoria e práxis em Direitos Humanos, Cidadania, Cultura, Ecologia, Política, Espiritualidade e Diálogo Inter-religioso.